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Quando a fé encontra o medo: como acreditar quando o corpo treme

  • Foto do escritor: Ana Miguel
    Ana Miguel
  • 7 de jan.
  • 4 min de leitura

 

“Quando somos capazes de acolher nossa própria fragilidade,

ela se transforma em fonte de comunhão.”

Henri Nouwen

 

Convivo com o Transtorno do Pânico desde 2020, depois de sofrer a perda do meu pai, de forma surreal, durante a pandemia do COVID-19. Não pudemos nos despedir, não pudemos velá-lo, caixão lacrado e fui eu a pessoa a “dar a autorização” para ele partir dizendo que tudo ficaria bem e cuidaríamos muito bem da minha mãe. Foi muito pra mim, mas naquele momento eu achava que deveria “ser forte”.


Meses depois, 4 crises em 3 dias. Choro compulsivo, sem saber o que estava acontecendo comigo. O peito doía, o corpo todo tremia e o medo me consumia.  


Quando o pânico me tirou o chão e já não enxergava meus próprios passos, descobri que não estava sozinha, estava sendo sustentada por Deus, que me carregou com ternura até que a vida reencontrou o ritmo.


Ainda há dias em que o corpo treme, o peito aperta e a mente corre por lugares que não escolho visitar. Quem convive com o transtorno do pânico sabe: não é só medo, às vezes é pavor. É uma experiência física, emocional e espiritual profunda, que invade sem pedir licença. E, muitas vezes, nesses momentos, a fé parece distante, não porque ela tenha ido embora, mas porque o barulho interno é alto demais.


Mesmo assim, é nesse lugar de fragilidade extrema que algo acontece: Deus permanece.


Durante uma crise de pânico, tudo em nós grita por controle. O coração acelera, a respiração falha, o pensamento se perde. A fé, que antes parecia firme, às vezes se torna apenas uma lembrança distante. E isso pode gerar culpa: “Se eu tivesse mais fé, isso não estaria acontecendo”, “Se eu...”


Mas o pânico não é falta de Deus, é o corpo em sofrimento. E Deus não se afasta do corpo que sofre.O medo do pânico paralisa. Dá a sensação de abandono, de solidão absoluta. Quem está ao nosso lado pensa que é exagero, que não pode ser tanto assim. Às vezes só precisamos de ajuda para respirar, talvez um carinho nas costas, baixar a rotação, e seria bom que quem está ao nosso lado, fisicamente, possa compreender e ser presença também. Deus não exige calma, Ele oferece sustentação.


Mesmo quando não sentimos, mesmo quando não conseguimos rezar, mesmo quando tudo parece desmoronar, Ele permanece. Não como solução imediata, mas como chão. E é no silêncio que ouvimos Deus.


Há momentos em que não conseguimos caminhar. E é aí que a metáfora da oração “Pegadas na areia” ganha, para mim, novo sentido: quando há somente dois pés de pegadas na areia, não é ausência, é colo, é Deus.


O pânico nos derruba, mas Deus não nos deixa no chão. Ele nos carrega no silêncio, com cuidado, até que possamos, pouco a pouco, retomar o fôlego. E não há vergonha em ser carregada, principalmente por Deus, há humanidade.


Durante uma crise, não cabem orações longas. O meu corpo não permite e a minha mente não sustenta. E está tudo bem, pois eu faço o que posso naquele momento.


Às vezes, a oração possível é apenas um sussurro: “Senhor, fica comigo.” Ou nem palavras, mas só um pensamento, um gesto interno de entrega. Teve dias em que a fé foi só isso: respirar e não desistir.


É preciso dizer com clareza: o transtorno do pânico não é castigo, não é fraqueza espiritual e nem ausência de Deus. É uma condição que envolve mente, corpo, história e limites. E a fé que eu considero saudável não nega isso, ela acolhe.


Buscar ajuda médica, terapêutica e cuidar do corpo não diminuiu a minha fé. Pelo contrário: honrou a vida que Deus confiou a mim.


A cura não acontece de uma vez. Ela vem em ritmos, temos dias bons, dias difíceis, recaídas e pequenos avanços. E Deus respeita esse tempo. Ele não apressa processos. Só não nos abandona, Ele caminha junto.


Cada passo que dei foi um reencontro: comigo mesma, com o meu corpo, com a vida e com Deus.A fé, com o tempo, ensina algo precioso: respirar diferente. Não para evitar o medo, mas para atravessá-lo. Ainda estou nesse aprendizado, me dou o tempo que necessito, sem culpas.


Procuro respirar com consciência, ter suporte em uma frase, um salmo, uma música, uma presença. É preciso sempre me lembrar que não estou sozinha.


O mais importante é que a paz que nasce daí não é ausência do pânico é sustentação no meio da crise.

E talvez o maior milagre não seja nunca mais ter pânico. Talvez seja continuar vivendo apesar dele. Seguir amando, trabalhando, caminhando, tendo fé, mesmo com medo.


A fé não me prometeu um caminho sem escuridão, ela prometeu companhia, sustento.


“Nada te perturbe, nada te espante. Tudo passa.

Só Deus não muda. A paciência tudo alcança.”

Santa Teresa de Ávila


2025 foi um ano de reencontro com a minha própria fé, um ano de reencontro com Maria e com Cristo. Ano em que eu pude sentir o poder do Espírito Santo agindo na minha vida! E que alegria imensa senti!


Foi um ano em que me acolhi, me entendi, resolvi questões! Em que meu corpo e minha mente estiveram em conjunto lutando por paz e tranquilidade.


E, quando o meu corpo treme, quando meus passos somem, quando tudo parece escuro, Deus continua ali, me carregando com ternura até que a vida, mais uma vez, encontre o ritmo. Nesses momentos eu vejo “somente duas pegadas na areia” e sei que Deus me sustentou.


Fiquem bem!

Feliz 2026


 

 
 
 
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