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Entre aeroportos, crises de pânico e fé: o que ninguém vê quando um filho vai para o mundo

  • Foto do escritor: Ana Miguel
    Ana Miguel
  • 20 de mar.
  • 4 min de leitura

 

“Teus filhos não são teus filhos. São filhos e filhas da ânsia da vida por si mesma… Tu podes dar-lhes teu amor, mas não teus pensamentos, porque eles têm seus próprios pensamentos.”

Khalil Gibran


Existe um tipo de medo que só uma mãe conhece. Não é um medo racional, não é um medo que se resolve com informação, com estatística ou com lógica. É um medo que nasce no mesmo lugar do amor e talvez por isso ele seja tão absoluto.


Quando meu filho começou a viajar para competir, eu achei que o desafio seria outro. Achei que seria lidar com a distância, com a saudade, com a logística: comeu? Está se alimentando bem? Está agasalhado? Não saia à noite sozinho. Mas não. O verdadeiro desafio é aprender a conviver com um corpo que reage como se estivesse em perigo constante, mesmo quando tudo está, aparentemente, sob controle.


Porque não é uma viagem qualquer. Não é um passeio. É o meu filho atravessando o mundo para competir em alto nível, indo para lugares que, durante muito tempo, eram apenas nomes distantes no mapa para mim. Arábia Saudita. Dinamarca. Países com outra língua, outra cultura, outro ritmo, outra lógica. E, de repente, ele está lá. Sozinho, preparado, competente, maduro, mas ainda sendo, o meu filho, que precisa ser cuidado, protegido.


E existe um detalhe que muda tudo: para que ele viva essa vida, eu precisei permitir que ele fosse. E foi nesse processo que eu descobri o que é, de fato, perder o controle do próprio corpo.


Eu já tive crise de pânico dentro de aeroporto, com pessoas passando, voos sendo anunciados, malas rodando nas esteiras, e eu tentando, discretamente, não desmoronar ali no meio. O ar não entra como deveria, o coração dispara sem ritmo, o corpo esfria, a sensação de dormência ao redor dos olhos, na ponta dos dedos, a dor apertando o peito e o choro incontido é o sinal de que algo muito grave está prestes a acontecer, mesmo sem nenhum motivo concreto. É como se o organismo não reconhecesse mais a realidade. E ninguém percebe. A vida continua ao redor, e você está lutando uma batalha completamente sua, que a família ao lado nem percebe que está acontecendo. Mas uma das crises que tive começou de um jeito muito específico e talvez por isso tenha me marcado tanto.


Era 2024, naquele ano, Porto Alegre não tinha aeroporto. A enchente tinha interrompido tudo, só isso já era uma luta com o cérebro. E, para que meu filho pudesse continuar competindo, eu fiz a estrada até Florianópolis oito vezes. Oito vezes atravessando centenas de quilômetros, organizando horários, segurando rotina, sustentando uma logística que, por si só, já exigia muito.


Nesse dia, eu levei ele até Floripa. Era mais uma viagem, mais uma despedida. Só que o aeroporto de Florianópolis fechou. Um avião teve o pneu estourado na pista, e tudo parou. Dois dias antes um voo da Voe Pass (antiga Passaredo) havia caído e matado todos a bordo. Coração muito apertado. E ali, naquele momento em que o plano falha, em que o controle desaparece, em que o imprevisto se impõe, o meu corpo começou a dar sinais de que entraria em colapso.


Tivemos de viajar algumas horas até o aeroporto de Navegantes. Depois do embarque do meu filho, a crise não veio devagar. Ela veio inteira. Veio como uma onda que não pede licença. O coração acelerou de um jeito que parecia não caber dentro do peito, a respiração ficou curta, insuficiente, as mãos gelaram, e a sensação era de que eu não conseguiria sustentar aquele momento. Não era só preocupação, era físico, era intenso, era real. E, ao mesmo tempo, eu precisava continuar funcionando. Resolver. Reorganizar. Estar ali.


No caminho de volta. Dentro do carro. E talvez esse seja um dos lugares mais difíceis de estar quando se vive algo assim, porque não existe distração. O silêncio amplia tudo. O corpo ainda em alerta, a mente tentando acompanhar, e eu dirigindo com a sensação de que precisava, ao mesmo tempo, manter o carro na pista e me manter inteira. Neste dia eu dirigi por 15 horas.


Essa é uma parte da maternidade que não aparece. Não está nas fotos de vitória, não está nas celebrações, não está nos títulos. Mas ela existe e é exigente.


O meu filho é um atleta de alta performance e existe um caminho sendo construído com disciplina, com consistência, com talento real. Existe um mundo que se abre para ele, e eu tenho plena consciência de que esse mundo só se abre porque ele vai. Porque ele enfrenta. E amar alguém nesse nível é viver uma contradição permanente.


É querer proteger de tudo e, ao mesmo tempo, entender que proteger demais também impede. É saber que o crescimento dele não está perto de mim, mas justamente onde eu não alcanço. É ter vontade de segurar e escolher, conscientemente, soltar.

 

“Confia o teu caminho ao Senhor e Ele tudo fará.”

Santo Agostinho


Eu tenho medo. E não tento diminuir isso com discursos bonitos. Não é um medo simbólico. Ele é concreto, é físico, ele já me pegou de formas que eu não imaginava. Mas existe algo que me sustenta quando o medo não dá conta, a fé e a consciência sobre a minha respiração e meu corpo, que aos poucos vou construindo.


A fé para mim não existe como uma ideia leve, mas sim como uma decisão firme. Eu entrego, confio. Eu escolho acreditar que existe um cuidado maior do que o meu, que não depende da minha presença, que não se limita ao que eu consigo controlar. Um cuidado que atravessa países, aeroportos, fusos, imprevistos. Eu escolho acreditar que Deus está com ele quando eu não estou. Mas nesse ponto, eu preciso confessar que ainda sou um “projeto em construção”.


E essa escolha não elimina o medo nem impede as crises. Ela não evita os momentos de descontrole. Mas ela me recoloca de pé depois. Ela me reorganiza por dentro quando tudo parece sair do lugar.

Entre o medo e a fé, eu sigo aprendendo a ser mãe de um filho que é do mundo e que me enche de orgulho.


E talvez seja isso que mais me transforma: entender que a coragem de uma mãe não está na ausência do medo, mas na capacidade de continuar, mesmo quando ele existe. Porque amar profundamente não é garantir segurança o tempo todo. É sustentar a liberdade do outro, mesmo quando isso exige de você mais do que você imaginava ser capaz de suportar.


Um abraço!

 

Fiquem bem!

 
 
 

2 comentários


barbara.sabreodonto
21 de mar.

Que texto mais lindo! Esse teu coração gigante faz isso mesmo: sentir demais. E esse sentimento é genuíno, verdadeiro e muito válido. Quem é mãe sabe, quem cuida, sabe. Orgulho imenso de ti que é mãe de todos e orgulho imenso do Arthur. Vocês construíram juntos uma jornada muito linda e não é a toa que ele tem esse sucesso todo! Colocar isso em palavras tão lindas faz com que todas nós que somos mães de adolescentes, prontas (ou não) para encarar a realidade do filho indo sozinho ver o mundo, nos identifiquemos com esses sentimentos e assim podemos entender melhor tudo isso. Aguardo ansiosamente o teu livro! Te amo ❤️

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Ana Miguel
Ana Miguel
23 de mar.
Respondendo a

Ah meu anjo que coisa linda esse comentário! Sempre com teu olhar amoroso sobre essa tia aqui que te ama tanto! Quanto ao livro....kkkkk...difícil me imaginar escrevendo um livro, mas vamos deixar nas mãos de Deus! Ele sabe a hora de todas as coisas! Te amo!

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Olá, que bom ver você por aqui!

Espero que você curta comigo essa travessia! Vamos juntos ajustar nossas velas e curtir.

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