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Formada no silêncio

  • Foto do escritor: Ana Miguel
    Ana Miguel
  • há 2 horas
  • 3 min de leitura


“De madrugada, quando ainda estava escuro,

Jesus levantou-se, saiu e foi a um lugar deserto, e ali orava.”

Marcos 1,35


No ano passado, por um “chamado interno”, eu resolvi me desafiar e rezar o Rosário da Madrugada, durante os quarenta dias da Quaresma. Não sabia o que estava buscando, mas senti no coração de que deveria fazê-lo.



Durante esses 40 dias, eu compreendi que a fé amadurece quando deixa de ser apenas sentimento e passa a ser decisão. Acordar às três e meia da manhã para rezar o Rosário da madrugada com o Frei Gilson não foi apenas um exercício de disciplina espiritual; foi um reposicionamento interior. Aquele horário, biologicamente o mais profundo do descanso humano, quando o corpo está imerso no ciclo mais restaurador do sono, tornou-se para mim um lugar de formação da vontade. A melatonina ainda elevada, o ritmo cardíaco desacelerado, a mente saindo lentamente do inconsciente: levantar-se nesse momento exige uma escolha que ultrapassa o conforto. É uma pequena (ou grande) renúncia corporal que educa a alma. O espírito aprende a governar o impulso e a decisão passa a conduzir o sentimento.


A tradição cristã sempre reconheceu a madrugada como tempo de vigília, como espaço entre a escuridão e a luz. Jesus se recolhia para rezar durante a madrugada. É o momento em que ainda não se vê o sol, mas já se confia na sua chegada. Rezar nesse horário é afirmar, com o próprio corpo, que a esperança antecede a evidência. Há uma pedagogia nessa escolha. A disciplina repetida durante quarenta dias desorganiza o corpo, mas reorganiza afetos, prioridades e respostas. A repetição das Ave-Marias construiu uma estrutura interior mais firme, reduzindo a minha impulsividade e ampliando o discernimento. O Rosário educou o meu pensamento, ajudou a acalmar os impulsos e principalmente alinhou meu coração.


Neste ano, os quarenta dias do Rosário na madrugada se unirão a um segundo movimento ainda mais radical: os trinta e três dias de Consagração a Nossa Senhora, segundo a espiritualidade de São Luís Maria Grignion de Montfort. A consagração, à luz dessa tradição, não é um gesto devocional isolado; é um ato de pertencimento total. Consagrar-se é entregar a Maria não apenas as orações, mas os méritos, as intenções, as virtudes e as fragilidades, para que tudo seja purificado e oferecido a Cristo. Não é deslocar o centro da fé, mas permitir que aquela que formou Jesus em Nazaré forme também Cristo em mim. Maria me conduzirá.


Há algo profundamente estruturante nessa entrega. Os quarenta dias da Quaresma remetem ao deserto bíblico, ao tempo de purificação e preparação. Os trinta e três dias da consagração evocam os anos da vida oculta de Cristo, anos silenciosos, sem visibilidade, mas decisivos. Ao unir esses dois tempos, percebo que estou entrando em um processo completo: despojamento e formação. Penitência e pertencimento. Disciplina e intimidade.


O que começou como um exercício espiritual no ano passado transformou concretamente a maneira como eu vivo. A renúncia das três da manhã suavizou minhas reações ao longo do dia. A constância da oração reduziu a ansiedade e ampliou o discernimento. Minha maternidade ganhou profundidade porque passei a agir menos por impulso e mais por consciência. Meu casamento ganhou ainda mais estabilidade porque aprendi a silenciar antes de responder. Minha vida profissional tornou-se mais centrada porque as decisões passaram a nascer de um interior mais ordenado. A fé deixou de ocupar um espaço periférico e passou a estruturar minha identidade.


Agora, ao iniciar novamente os quarenta dias de Rosário na madrugada e os trinta e três dias de consagração, não busco experiências extraordinárias, mas uma coerência interior que me levará mais próxima de Cristo e de sua mãe, Maria. Sei que o corpo sentirá o peso da falta de sono. Sei também que haverá resistência. Mas compreendo que é justamente nessa resistência que a vontade se fortalece e que a graça de Deus encontra espaço. A repetição diária, quando feita com intenção modela a pessoa inteira.


Esses dias não são apenas um calendário espiritual. São uma escolha, um processo deliberado de transformação. Pertencer mais profundamente a Jesus pelas mãos de Maria significa permitir que minhas escolhas sejam educadas, que minhas prioridades sejam revistas e que minha vida cotidiana reflita aquilo que eu rezo. Significa compreender que a verdadeira maturidade espiritual não se mede por emoções intensas, mas por estabilidade interior.


Quando a fé desce ao corpo, quando ela reorganiza o ritmo do sono e exige disciplina e perseverança, deixa de ser teoria e se torna forma de vida. E é nessa forma de vida que eu tenho encontrado o Cristo, não distante, mas presente, estruturando meus afetos, fortalecendo minha maternidade, amadurecendo meu casamento, qualificando minha atuação profissional e como ser humano.


Os quarenta dias do deserto e os trinta e três dias de entrega não são um esforço isolado; são um movimento de busca e pertencimento. E quanto mais pertenço, mais inteira eu me torno.

 

 
 
 

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