Filho, chegou a hora de construir a sua própria casa.
- Ana Miguel

- há 5 horas
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E nós vamos aprender a chamar de distância aquilo que nunca deixará de ser presença.
Filho,
Esta pode ser a carta mais difícil que já escrevi para você. Não porque me faltem palavras, mas porque há momentos em que não é fácil colocar nelas tudo o que uma mãe e um pai sentem por seu filho.
E nos últimos dias, uma memória não sai da minha mente. Você tinha cerca de três anos. Estava na cadeirinha, no banco de trás do meu carro e estávamos indo para a pré-escola. Não sei como começamos aquela conversa, mas lembro de perguntar sobre amigos e namoradas. Você olhou para fora e respondeu com aquela seriedade que só uma criança pode ter: Mamãe, eu não vou "namolar". Vou ver o mundo. Vou ver a Itália, a “Fança”.
Eu não esqueço. Achei "namolar" e "Fança" muito engraçado e fofo naquele dia. Achei lindo que uma certeza tão grande coubesse em um menino tão pequeno. Eu não sabia que lembraria daquela frase tantos anos depois, quando tivesse que encontrar palavras para escrever uma carta para meu filho que está saindo de casa e indo para o mundo.
Mas eu realmente nunca duvidei que você conseguiria, filho. Talvez alguma parte de você já soubesse. E quando olhamos para o homem que agora vai morar em outro país, também vemos aquele menino sentado na cadeirinha do carro falando com muita convicção, do alto dos seus 3 aninhos.
Aquele mundo que parecia tão distante e longe naquela manhã, se tornou cada vez mais próximo à medida que você crescia, tomava decisões, descobria sua paixão tão cedo e tinha a coragem de levá-la a sério quando tantas pessoas podem nem mesmo entender onde isso pode levar.
Nós entendemos!
Provavelmente nem sempre soubemos o caminho, talvez muitas vezes tenhamos aprendido juntos, mas nunca duvidamos de uma coisa: valeu a pena acreditar em você. Valeu muito!
Aquele Drufinho que tantas pessoas conhecem hoje é aquele jogador, o atleta, o profissional que conquistou seu lugar, que percorreu o mundo, enfrentou grandes jogadores e transformou um jogo de futebol de carrinhos que começou como uma brincadeira em uma carreira de muito sucesso, muito trabalho, disciplina e responsabilidade. Temos muito orgulho desse Drufinho. Mas ainda mais orgulho temos do Arthur. Pelo filho, pelo ser humano e pelo homem que se tornou. Acima de tudo, pela forma como você trata as pessoas, pelas decisões que você toma, pela maneira como você assume a responsabilidade pelo que faz, pela dedicação que coloca em tudo.
Você pode nunca realmente entender o quão importante você é para a forma como vivemos, mas você faz parte de como construímos nossa vida. Pensar no futuro significava pensar em nós três por tantos anos. Você está nas viagens, nas refeições, nas conversas, nos campeonatos, nos problemas, nas celebrações e nas milhares de pequenas coisas que compõem o que chamamos de “a nossa famlia”.

Agora esse futuro está começando a mudar. E dói. Dói porque realmente nos importamos com a vida que construímos com você por perto. Sentiremos falta da sua presença em casa, dos seus horários, das suas coisas, das conversas importantes e das absolutamente desnecessárias. Sentiremos falta até do que ainda não sabemos que sentiremos falta. Mas nenhuma saudade seria motivo suficiente para desejarmos que você ficasse. Criamos você para ter a coragem de ir.
E talvez uma das coisas mais difíceis de ser pai e mãe seja perceber que quando trabalhamos duro e estamos fazendo certo, sabemos que o filho que amamos está pronto para ir para a vida fora de casa.
Esse dia chegou. Você terá uma experiência enorme agora. Vai estudar, jogar, conhecer pessoas, aprender outras formas de viver, cometer erros, resolver problemas por conta própria, aprender novas habilidades que você nem sabe que tem ainda.
Haverá grandes dias e dias difíceis. Você pode estar muito seguro às vezes, e pode ter um desejo imenso de estar aqui novamente. Em ambos os casos, lembre-se de quem você é. Não deixe uma vitória apagar o que você tem a dizer e não deixe uma derrota apagar o seu valor. Você já nos deu tantos motivos para nos orgulharmos. Não precisa provar nada para ninguém. Queremos suas conquistas, é claro, mas só porque sabemos o quanto isso te faz feliz.
Mas, acima de tudo continuaremos torcendo por você em cada campeonato, cada gol, cada defesa, cada vitória e cada novo passo em sua carreira. Provavelmente continuaremos sofrendo em cada jogo como se estivéssemos jogando com você. Só queremos que você seja feliz com sua vida.
Que você seja um bom homem, que seja responsável quando ninguém estiver olhando, respeite as pessoas, cuide das pessoas com quem você convive e saiba pedir ajuda quando precisar. E, principalmente, que você tenha coragem de mudar de rumo se um dia perceber que não faz mais sentido. Que nunca pense que independência é estar sozinho, porque você nunca estará. Há uma casa no Brasil onde você não precisa conquistar um lugar, mostrar resultados, ter uma classificação, levantar um troféu ou provar absolutamente nada. Sua casa, onde você é simplesmente NOSSO FILHO.
E este é o seu lugar e sempre será o seu lugar. Você pode ir a qualquer lugar do mundo e jogar por qualquer time, desenvolver a carreira que quiser, sempre há um caminho de volta para casa e um pai e uma mãe esperando por você exatamente da mesma forma.
Nosso coração irá com você quando embarcar naquele avião. Não para impedi-lo de voar, mas porque amar um filho também significa aprender que precisamos ser capazes de acompanhá-los à distância.
Então vá, filho. Vá ver o mundo. Itália, "Fança", Estados Unidos e todos os outros lugares que aquele menino de três anos nem sabia nomear ainda.
Faça amigos. Estude. Jogue. Trabalhe. Divirta-se. Cuide de si mesmo. Aprenda. Conheça lugares, pessoas, culturas. Descubra quem é o Arthur quando precisa resolver sua própria vida longe de nós. E construa uma vida da qual você se orgulhe, não apenas das coisas que faz, mas também de quem você é em sua vida e o que você é, com a pessoa que você escolhe ser também.
Lembre-se: quando sentir saudade nós também sentiremos isso. E talvez a saudade seja apenas uma medida de quão bem nos sentimos tendo você tão perto todos esses anos. Vamos juntos olhar a lua e lembrar que estamos logo ali pra você.
Nós te amamos de uma forma que nenhuma carta poderia explicar. E estamos orgulhosos do jogador que você se tornou. Mas estamos ainda mais orgulhosos do homem que estamos vendo partir. E talvez, quando aquele menino olhou pela janela do carro e disse que queria ver o mundo, ele estava nos avisando que esse dia chegaria.
E assim estamos prontos para vê-lo partir para sua nova vida, porque o mundo é seu, filho, mas sua casa permanecerá aqui. Sempre.
Com todo o amor que há em nós,
Mamãe e Papai




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