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Quando a alegria não elimina a saudade

  • Foto do escritor: Ana Miguel
    Ana Miguel
  • 27 de jul.
  • 5 min de leitura

“A casa continua a mesma. Quem muda é o silêncio.”

Autor Desconhecido


Há pouco mais de sessenta dias, comecei a viver uma contagem regressiva que eu sabia que chegaria, mas para a qual, ninguém se prepara de verdade.


Meu filho está de partida. Dentro de algumas semanas embarca para os Estados Unidos, onde irá jogar e estudar em uma universidade reconhecida dando continuidade à carreira profissional que construiu no e-sport. Para quem não sabe ele é Pró-player, um jogador profissional de games e esse acontecimento é o resultado de anos de disciplina, renúncias e muito trabalho. Um sonho que não apareceu de repente. Foi sendo construído, dia após dia, com a paciência de quem entende que grandes conquistas raramente acontecem por acaso.


Olho para tudo isso com um orgulho que dificilmente caberia em palavras. Não há uma única parte de mim que desejasse um destino diferente para ele. Se pudesse voltar no tempo, faria exatamente as mesmas escolhas para que este momento acontecesse.


Ainda assim, meu coração está muito apertado.


Não porque exista qualquer dúvida sobre o caminho que ele está prestes a percorrer. Também não porque eu tema o futuro. O aperto nasce de um lugar muito mais simples e, talvez justamente por isso, mais difícil de explicar: ele vai embora. A casa mudará de ritmo. A rotina deixará de ter a mesma composição. Haverá uma cadeira vazia à mesa, um quarto que permanecerá arrumado por mais tempo do que antes e uma ausência que nenhuma chamada de vídeo será capaz de transformar em presença.


Há algumas semanas, uma pergunta passou a fazer parte da minha rotina. "Como você está?" A resposta quase nunca muda. Digo que estou feliz, profundamente feliz, mas com o coração apertado. E, quase sempre, antes que minha frase termine, vem a tentativa de consolo: "Mas pensa pelo lado bom."


O lado bom aparece em seguida, como se eu ainda não o conhecesse. Frases como: “Ele vai morar em um país seguro.” “Vai estudar em uma excelente universidade.” “Está realizando um sonho pelo qual trabalhou durante anos.” “Terá oportunidades que poucos jovens têm.” Tudo isso é verdade. Eu poderia repetir cada um desses argumentos com o maior entusiasmo, porque nenhum deles é estranho para mim. Ao contrário, são exatamente as razões pelas quais sinto tanto orgulho.


Talvez seja justamente por isso que eu tenha demorado a compreender o que estava acontecendo dentro de mim.


Percebi que, toda vez que alguém me lembrava das razões para estar feliz, minha tristeza recolhia-se imediatamente, quase como se estivesse ocupando um espaço que não lhe pertencesse. Aos poucos, tranquei o choro, porque comecei, sem perceber, a desconfiar dele. Passei a sentir culpa por sentir.

Foi então que compreendi que nosso coração guarda memórias que nem sempre reconhecemos de imediato.


Anos atrás, quando vivi a perda da Ana Clara durante a gestação, ouvi inúmeras tentativas de aliviar uma dor que parecia desconfortável para quem estava ao redor. As pessoas falavam movidas pelo carinho, eu nunca duvidei disso, mas quase todas as frases tinham a mesma intenção: substituir a minha tristeza para que ela deixasse de existir. Diziam que eu era jovem, que poderia ter outros filhos, que Deus sabia o que estava fazendo, que havia um propósito maior. Nenhuma dessas afirmações era necessariamente falsa. O problema é que nenhuma delas respondia ao que realmente acontecia dentro de mim.


Hoje percebo que meu cérebro fez uma nova associação. Diante de outra despedida que agora vem carregada por excelentes notícias, ele parece repetir a mesma lógica: se a vida está oferecendo algo tão bonito, talvez eu não tenha o direito de sofrer. Mas eu acho que essa conclusão é injusta.


A realização de um sonho não anula a dor da despedida. Da mesma forma que a despedida não diminui a grandeza da conquista.


“Vossos filhos não são vossos filhos.

São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.”

Khalil Gibran


Existe uma expectativa bem curiosa de que as emoções caminhem em fila, organizadas, sem se misturar. Como se fosse necessário escolher entre celebrar ou sentir falta. Como se o orgulho ocupasse exatamente o mesmo lugar da saudade e apenas um deles pudesse permanecer. A experiência da maternidade ensina justamente o contrário.


A gente passa a vida inteira preparando os filhos para que caminhem em direção ao mundo, para que criem asas e voem e, quando finalmente eles caminham, descobre que também precisa aprender a permanecer. Há uma parte de nós que comemora cada passo dado por eles e outra que reconhece que a casa nunca mais será a mesma. Essas duas partes não brigam entre si, elas convivem.  E ambas existem porque existe amor, muito amor!


Nesse caminho, a gente aprende que sonhos realizados também mudam geografias, rotinas e presenças. Mudam o café da manhã, os almoços de domingo, as conversas despretensiosas, o barulho de uma porta abrindo no fim da tarde. Mudam aquilo que nunca aparece nas fotografias, mas que sustenta a sensação de acolhimento que chamamos de lar.


Talvez o verdadeiro amadurecimento emocional consista justamente em abandonar a necessidade de justificar aquilo que sentimos. Nem toda alegria elimina a saudade, assim como nem toda saudade nasce de uma tragédia. Existem ausências que chegam pelas mãos da vida, não da morte. Elas não carregam desespero, carregam transformação.


Meu filho está indo viver aquilo que sempre desejou. Não há uma única parte de mim que queira impedir esse voo, pelo contrário, se fosse preciso, eu o incentivaria novamente. Porque amar um filho também é desejar que ele alcance lugares aonde nós jamais chegamos e isso não impede que, depois de fechar a porta de casa, eu sinta vontade de chorar.


Durante algum tempo pensei que essas lágrimas significassem falta de gratidão. Hoje entendo que significam exatamente o oposto. Elas existem porque houve uma história bonita o suficiente para que a ausência deixasse marcas. Elas existem porque houve convivência, construção, amor, presença, confiança. E existem porque o amor nunca se mede apenas pela intensidade com que celebramos as chegadas, mas também pela profundidade com que vivemos as partidas.


Talvez seja isso que eu gostaria que as pessoas compreendessem quando perguntam como estou.


Não preciso que me lembrem do lado bom. Eu o conheço melhor do que ninguém, pois fui testemunha de cada esforço, de cada renúncia, de cada etapa percorrida até que esse sonho se tornasse possível.


O que meu coração precisa não é de argumentos para deixar de sentir. Precisa apenas da liberdade de viver, ao mesmo tempo, a alegria de quem vê um filho partir para construir a própria história e a saudade inevitável de quem permanecerá aqui, torcendo para que o mundo o acolha com a mesma ternura com que um dia eu o acolhi nos meus braços.


Aproveita essa nova etapa, meu filho! Seja feliz! Será lindo demais! Te amo!


Um abraço.

Fiquem bem!

 
 
 

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