CONSTRUÍ UM CORPO FORTE. E AINDA ASSIM TENHO MEDO.
- Ana Miguel

- 20 de fev.
- 3 min de leitura
"Eu não sou o que aconteceu comigo.
Eu sou o que escolho me tornar."
Carl Jung
Hoje, depois de 5 anos com Transtorno de Pânico, olhando para mim, poderia parecer que eu cheguei a algum lugar definitivo, que a disciplina se consolidou, que o medo ficou para trás e que a nova rotina passou a existir sem esforço, mas a verdade é que nada disso é permanente, nada disso é automático, tudo continua exigindo de mim uma força diária e consciente, porque o cuidado não é um estado que se alcança, se escolhe todos os dias, e eu continuo escolhendo.
Minha alimentação hoje é regrada, pensada, organizada, não nasce de impulsos, nasce da consciência, da memória de quem eu fui e de quem eu não quero voltar a ser, eu me alimento com respeito ao meu corpo, com responsabilidade, entendendo que cada escolha constrói ou desconstrói aquilo que eu levei tanto tempo para reconstruir, e não há nada rígido nisso, há um compromisso profundo comigo mesma.
Eu continuo treinando, acordando cedo, me movimentando mesmo nos dias em que não tenho vontade, porque aprendi que a vontade é instável, mas a minha decisão não pode ser, e foi nesse processo que passei a entender o meu corpo não como um inimigo que precisa ser controlado, mas como uma estrutura viva que tem de ser sustentada, fortalecida, cuidada, e hoje ele é mais forte do que nunca, mais capaz, mais resistente, eu construí quase oito quilos de massa magra em 1 ano e meio. De músculo, de sustentação real, de força de vontade, um corpo que responde e que me carrega com estabilidade, mas, paradoxalmente, foi nesse mesmo tempo que a menopausa me trouxe outros oito quilos, mas que não nasceram da negligência, ou do abandono, da falta de cuidado, nasceram da biologia, da vida acontecendo dentro de mim de uma forma que eu não controlo.

"Coragem é não se abandonar."
Clarice Lispector
Talvez essa seja uma das maiores lições e uma das minhas maiores angústias, entender que existem partes da vida onde o esforço não garante o resultado, onde a disciplina não produz o efeito esperado, em que você simplesmente acha que controla, mas o controle é uma ilusão, e conviver com isso não é simples, porque existe algo que ainda permanece em mim e que talvez sempre permaneça, O MEDO.
O medo de engordar novamente, o medo de perder o que construí, novamente o medo de morrer, o medo de voltar a um lugar que eu conheço profundamente e que sei o quanto é difícil sair, porque o corpo tem memória e a mente também tem. Pra mim, a balança ainda é um território sensível, ainda existe muita ansiedade antes de subir nela, ainda existe uma suspensão quase imperceptível da respiração enquanto espero o número aparecer, como se aquele número tivesse o poder de dizer algo sobre mim, como se ele pudesse confirmar ou ameaçar a segurança que eu construí, e eu sei que isso não é racional, mas para mim é real.
Eu convivo hoje com um corpo mais forte e, ao mesmo tempo, com uma mente que ainda carrega vestígios de fragilidade, e essa convivência é parte da minha realidade, existem dias em que me sinto absolutamente segura, presente, conectada com minha força, consciente de tudo que fui capaz de construir nesses 5 anos de mudança de vida. Eu sei, não retiro meu mérito, mas existem outros momentos em que ainda me observo com cautela, como se estivesse sempre a um passo de perder o equilíbrio, e talvez isso exista porque eu sei o quanto foi difícil chegar até aqui, porque eu sei que nada disso foi dado, tudo foi conquistado com esforço, com dor, com enfrentamento, com decisões que precisei tomar mesmo quando estava com medo.
O medo não foi embora, ele apenas deixou de me paralisar, ele deixou de me definir, mas ele ainda existe, ele caminha ao meu lado, aparece em pensamentos, em inseguranças, em perguntas sobre o futuro, sobre o envelhecimento, sobre o corpo, sobre a vida. E hoje, mais do que nunca eu entendo aquela máxima de que coragem nunca foi a ausência do medo, coragem sempre foi continuar apesar dele, continuar cuidando, escolhendo, sustentando aquilo que eu sei que me mantém viva, e é isso que eu faço, não porque seja fácil, não porque eu não tenha receios, mas porque eu entendi que o cuidado comigo mesma é a única forma de permanecer inteira dentro da minha própria vida.
Hoje eu não sou uma mulher sem medo, sou uma mulher que aprendeu a não se abandonar quando ele aparece, e essa talvez seja a maior transformação de todas.
Um beijo e fiquem bem.
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